O tema “caneta emagrecedora” é frequente em conversas de família, grupos de WhatsApp e redes sociais. E a liraglutida tem seu papel nesse cenário. Embora já fosse usada para o diabetes tipo 2, ela foi a primeira substância da classe agonistas do receptor de GLP-1 aprovada especificamente para o tratamento da obesidade1.
Atualmente, há medicamentos à base de semaglutida, também um agonista do receptor de GLP-1, e de tirzepatida, que age em dois receptores, além de outras moléculas em fase de estudos, como a retatrutida2. Diante das opções e da popularidade dessa classe de medicamentos, podem surgir dúvidas e informações desencontradas sobre cada um deles.
A seguir, explicaremos a ação da liraglutida e a diferença dessa molécula para as demais. Saiba mais sobre os agonistas de GLP-1, mas já deixamos aqui um recado importante: todos esses medicamentos exigem prescrição e só devem ser usados com indicação e acompanhamento médico.
O que é liraglutida
A liraglutida é uma das substâncias pioneiras entre os chamados agonistas do receptor de GLP-11. Para entender o que isso significa, o primeiro passo é compreender o que é esse tal de GLP-1.
Trata-se de um hormônio liberado no intestino depois que comemos. O GLP-1 ajuda a controlar a glicose, sinaliza saciedade e interfere na velocidade com que o estômago libera o alimento para o intestino (esvaziamento gástrico)3,4.
Já a liraglutida é uma molécula criada para imitar o GLP-1, mas com modificações que fazem seu efeito durar mais tempo, permitindo a aplicação uma vez ao dia4,5.
No Brasil, a liraglutida foi aprovada em 2016 para o tratamento de obesidade, desde que sob prescrição médica e associada à mudança no estilo de vida, que envolve alimentação saudável e aumento da atividade física6.
Liraglutida para emagrecer: como o medicamento age no corpo
Ao ligar-se aos receptores do GLP-1, a liraglutida atua em diferentes regiões do organismo:
- no cérebro: reforça os sinais de saciedade e ajuda a reduzir a fome e, consequentemente, a ingestão de alimentos3,4;
- no aparelho digestivo: retarda o esvaziamento do estômago e pode prolongar a sensação de estômago cheio3,4;
- no pâncreas: favorece a liberação de insulina quando a glicose está elevada3,4.
Todas essas ações contribuem para o controle e a redução do peso. O resultado no tratamento, entretanto, varia de pessoa para pessoa. Segundo o estudo SCALE Obesidade e Pré-diabetes, destacado nas diretrizes brasileiras para o manejo da obesidade, 63,2% dos pacientes monitorados perderam mais de 5% do peso inicial e 33,1% perderam mais de 10%7. O estudo avaliou mais de 2.200 pacientes e comparou o uso de liraglutida na dose diária de 3,0 mg com placebo.
Com isso, a liraglutida, também pela diretriz, é considerada de eficácia moderada em conjunto com mudança de estilo de vida7.
O tratamento costuma começar com dose menor e avançar gradualmente, conforme prescrição médica6. Náusea, vômitos, diarreia e constipação estão entre os efeitos colaterais mais frequentes da liraglutida7.
Liraglutida ou semaglutida: quais as principais diferenças?

Ambos os medicamentos atuam no organismo imitando a ação do hormônio GLP-1 e podem ser indicados para o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade7. Os resultados, entretanto, podem ser diferentes.
Enquanto pesquisas apontam perdas de 5% e 10% do peso inicial com liraglutida na dose 3,0 mg/dia, o programa de estudo STEP demonstrou uma média de redução de 17% do peso corporal com a semaglutida7,8.
A frequência das aplicações também muda. Como permanece por mais tempo no organismo, a semaglutida é administrada uma vez por semana. Já a liraglutida precisa ser aplicada diariamente6,9.
Mas a escolha do medicamento não depende apenas dos resultados na balança. Também é fundamental que o médico analise o histórico do paciente e suas necessidades, além de levar em conta os benefícios e os efeitos de cada tratamento.
A tabela a seguir resume as diferenças entre liraglutida e semaglutida com base nas diretrizes brasileiras para o manejo da obesidade e estudos.
| Característica | Liraglutida | Semaglutida |
|---|---|---|
| Mecanismo de ação | Imita a ação do hormônio GLP-1 no organismo7 | Imita a ação do hormônio GLP-1 no organismo7 |
| Uso | Via subcutânea, uso diário7 | Via subcutânea, uso semanal7 |
| Eficácia no tratamento do diabetes | Ajuda no controle glicêmico no diabetes e reduz riscos de o pré-diabetes evoluir para diabetes7 | Além de atuar no controle glicêmico e também reduzir as chances de o pré-diabetes evoluir para o diabetes tipo 2, promove perda de peso superior em pacientes já diagnosticados com DM2 (vs. outras classes de antidiabéticos)7 |
| Eficácia para a perda de peso | Redução de peso entre 5% e 10% (estudo SCALE)7 | Redução de 17% em média do peso corporal (programa de estudos STEP)7,8 |
| Eficácia para saúde cardiovascular e outras condições | Redução de risco cardiovascular7 | Redução do risco cardiovascular e benefícios para a saúde renal e hepática7,10,11,12 |
Como a tirzepatida entra nessa comparação?
A tirzepatida, por sua vez, pertence a uma geração diferente de medicamentos porque atua em dois receptores: GLP-1 e GIP, dois hormônios envolvidos no controle da glicose, da saciedade e do peso corporal7.
Com isso, também é uma substância indicada para o tratamento do diabetes e para a obesidade7.
Assim como a semaglutida, a tirzepatida é aplicada via subcutânea, uma vez por semana. E os efeitos colaterais mais comuns das três substâncias (liraglutida, semaglutida e tirzepatida) são semelhantes: náusea, vômitos, diarreia e constipação7.
A escolha do melhor medicamento cabe ao médico. Os resultados podem variar de pessoa para pessoa, assim como a adaptação ao tratamento e os sintomas relacionados. Por isso, converse com um profissional de saúde em caso de dúvida e use apenas medicamentos com indicação e acompanhamento.
Para saber mais detalhes, acesse nosso artigo sobre semaglutida x tirzepatida.
Patente liraglutida e cenário atual do mercado das canetas
O fim da patente da liraglutida no Brasil passou por uma disputa judicial13. Recentemente, no início de setembro de 2026, a Anvisa aprovou dois medicamentos genéricos de liraglutida no país14.
Importante ressaltar que cada produto precisa demonstrar à Anvisa que cumpre os requisitos de eficácia, segurança e qualidade antes de chegar às prateleiras das farmácias. E a agência mantém uma fiscalização rigorosa contra a importação e a manipulação de canetas emagrecedoras15.
A entrada de concorrentes pode ampliar a oferta e tornar um medicamento mais acessível, porém a escolha do tratamento continua sendo de responsabilidade do médico. Cabe ao paciente seguir as orientações, manter o acompanhamento com os profissionais de saúde e usar apenas medicamentos devidamente registrados na Anvisa.
Uso consciente dos análogos de GLP-1

Os medicamentos análogos de GLP-1 são grandes aliados no tratamento do diabetes e da obesidade e devem ser usados com orientação e acompanhamento médico, em conjunto com mudanças no estilo de vida, como dieta balanceada e prática regular de exercícios7.
E ao mesmo tempo que a popularidade amplia o acesso à informação sobre substâncias como liraglutida, semaglutida ou tirzepatida, há muito boato que ganha força e, cada vez mais, vemos notícias sobre o comércio ilegal de canetas emagrecedoras.
A Anvisa sempre faz alertas para os perigos do uso de medicamentos sem registro que, às vezes, contêm substâncias que ainda nem estão aprovadas. Tais canetas podem estar contaminadas e nem conter medicamento de fato. Usar um produto como esse é expor a saúde a sérios riscos15.
Por isso, a escolha do medicamento não deve ser feita com base em promessas em redes sociais e, sim, com indicação médica, que leva em consideração as melhores evidências de acordo com a necessidade de cada pessoa.
Leia também: O que sabemos até o momento sobre a retatrutida
Importante: o conteúdo deste artigo é estritamente informativo e não substitui a consulta médica. As informações aqui contidas não devem ser utilizadas para automedicação ou autodiagnóstico. Nunca utilize medicamentos sem a orientação de um profissional de saúde habilitado e não interrompa tratamentos em curso sem o devido acompanhamento. Em caso de dúvidas sobre sua saúde, consulte sempre um médico.




