Já imaginou passar dias sem sentir fome? Ou então recusar aquela comida não por foco na dieta, mas simplesmente porque o desejo de se alimentar desapareceu? Esse tipo de comportamento tem sido relacionado ao uso de medicamentos análogos de GLP-1 e passou a ser descrito pelo termo informal “agonorexia“1.
O termo não é um diagnóstico reconhecido nem faz parte da literatura científica, mas vem sendo usado nas redes sociais, na imprensa e, recentemente, foi tema de um post no perfil oficial da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) no Instagram. O conteúdo sobre agonorexia já ultrapassa os 12 mil likes e soma centenas de comentários1.
O cenário acende um alerta, pois a supressão da fome e até do prazer em comer pode trazer sérias consequências para a saúde. E vale como um reforço de que tanto a orientação quanto o acompanhamento médico são essenciais em qualquer tratamento para obesidade, incluindo aqueles que têm como base o uso das chamadas “canetas emagrecedoras”.
Os análogos de GLP-1 registrados pela Anvisa, como a semaglutida, são medicamentos seguros, mas devem ser usados com consciência, conforme orientação médica e com acompanhamento adequado.
O que é agonorexia? Entenda o novo termo
Agonorexia é o termo informal, usado para descrever a redução extrema da fome observada em algumas pessoas que utilizam medicamentos análogos de GLP-1, como as canetas de semaglutida ou tirzepatida1.
Segundo a postagem da SBEM, o termo nasce da junção de “análogos do GLP-1” com anorexia. Embora esses medicamentos tenham como efeitos esperados o aumento da saciedade e a diminuição do apetite, em alguns casos, a perda da fome pode se tornar tão intensa que passa a prejudicar a nutrição adequada1.
Nessa situação, de acordo com a SBEM:
- a fome é “apagada”1;
- a pessoa pode ter aversão à comida1;
- a pessoa pode ficar sem comer nada por longos períodos1.
Vale destacar, novamente, que agonorexia não é uma doença oficialmente reconhecida pela medicina. Trata-se de uma palavra criada para descrever um fenômeno relatado por pessoas em tratamento de obesidade e discutido por profissionais de saúde.
A diferença entre agonorexia, anorexia e bulimia
Enquanto a agonorexia é um termo popular, anorexia e bulimia são transtornos alimentares reconhecidos pela medicina.
A anorexia é um transtorno alimentar caracterizado pela restrição voluntária da alimentação, medo intenso de ganhar peso e distorção da imagem corporal2,3.
Já na agonorexia, a pessoa deixa de comer por uma falta de fome relacionada ao uso de medicamentos análogos de GLP-1. Como explica a SBEM, o alerta ocorre quando essa redução do apetite leva a uma ingestão insuficiente de alimentos e pode comprometer a nutrição adequada, por ir além do efeito esperado dos medicamentos1.
Por outro lado, a bulimia nervosa é caracterizada por episódios de compulsão alimentar, nos quais a pessoa ingere grandes quantidades de comida em um curto período, acompanhados da sensação de perda de controle2,3.
Após esses episódios, surgem comportamentos compensatórios para evitar o ganho de peso, como vômitos provocados, uso inadequado de laxantes, jejuns prolongados ou exercícios físicos excessivos2,3.
O recado principal é: embora tenham causas e mecanismos diferentes, todos os quadros comprometem a nutrição adequada e a saúde. É importante buscar avaliação e acompanhamento de profissionais de saúde.
Como as canetas de GLP-1 reduzem a fome?
Esse tipo de medicamento, que ganhou fama sendo chamado de “caneta emagrecedora”, imita a ação do GLP-1, um hormônio naturalmente produzido no intestino após as refeições. Uma de suas funções é enviar sinais ao cérebro indicando que o organismo já está satisfeito, ajudando a controlar a fome e reduzir o apetite4.
Além de aumentar a sensação de saciedade, esses medicamentos, especialmente no início do tratamento, também retardam o esvaziamento do estômago2. Com isso, a comida permanece por mais tempo no sistema digestivo, diminuindo ainda mais a vontade de comer entre as refeições4,5.
Esses efeitos estão entre as principais razões pelas quais os análogos de GLP-1, como a semaglutida, têm se mostrado eficazes no tratamento da obesidade4-6.
No entanto, a redução do apetite nesse processo deve ocorrer de forma equilibrada. O objetivo do tratamento coordenado pelo médico não é eliminar completamente a fome, mas facilitar a adesão a hábitos alimentares saudáveis e promover uma perda de peso sustentável.
E outro ponto é: estamos falando das canetas registradas pela Anvisa. Nunca use medicamentos que não tenham registro e não estejam aprovados pelos órgãos oficiais.
Leia também: Entenda como a semaglutida age na digestão e por que há a sensação de “estômago cheio”.
Quando a falta de fome pode prejudicar a saúde?
A fome é um mecanismo natural do organismo, que sinaliza a necessidade de energia e nutrientes para manter o corpo funcionando adequadamente. Da mesma forma, a saciedade existe para indicar o momento de interromper a alimentação. O equilíbrio entre esses dois sinais é fundamental para a saúde7.
Quando uma pessoa passa a comer pouco, pode deixar de consumir proteínas, vitaminas, minerais e outros nutrientes essenciais para o funcionamento do organismo. Com o tempo, essa ingestão alimentar insuficiente pode causar fraqueza, fadiga, queda de cabelo e alterações imunológicas7,8.
Outro risco importante associado à desnutrição é a perda de massa muscular. Em alguns casos, essa perda pode contribuir para o desenvolvimento da sarcopenia. Nesses casos, a redução do peso não ocorre apenas pela perda de gordura, mas também pela diminuição da musculatura, o que compromete a mobilidade, a saúde metabólica e a qualidade de vida8.
Os impactos, entretanto, vão além dos aspectos físicos, pois comer não é apenas uma necessidade biológica, mas um ato social e afetivo9. Refeições fazem parte de encontros em família e celebrações. Quando a pessoa perde o interesse pela comida, pode se isolar e evitar sair com amigos ou familiares, por exemplo, e isso também traz sérias consequências.

Por isso, quadros como os da chamada agonorexia têm acendido o alerta entre profissionais de saúde e pacientes. Não faz bem perder a fome e deixar de comer. Nesse caso, o emagrecimento é acelerado e desequilibrado, com perda de músculos e outras consequências graves1.
Por outro lado, o sucesso do tratamento da obesidade leva em conta a perda de peso aliada à boa saúde física, nutrição adequada e mudanças de hábitos, construindo uma relação saudável com a comida.
Sinais de alerta para agonorexia
Alguns sinais podem indicar que não se trata apenas de redução do apetite esperada pelo uso das canetas. Se notar qualquer um deles ou tiver qualquer dúvida em relação ao seu tratamento com semaglutida ou outro análogo de GLP-1, procure seu médico.
Entre os principais sintomas da agonorexia listados pela SBEM1, destacam-se:
- perda quase completa da sensação de fome e aversão à comida1;
- desinteresse em participar de almoços e jantares entre amigos e família1;
- fraqueza, fadiga ou redução da disposição para as atividades diárias1;
- tonturas ou sensação de mal-estar1.
Lembrando que, em um adequado tratamento para obesidade, como o feito com a semaglutida, há uma redução proporcional da fome. Aos poucos, a pessoa revê seus hábitos, mantendo o interesse pela comida. As refeições se tornam mais equilibradas, garantindo a quantidade necessária de proteína e energia1.
O esperado é uma perda de peso saudável e sustentável, aliada à mudança de estilo de vida.
O que fazer em caso de sintomas de agonorexia ou de algum distúrbio alimentar?
Em caso de sintomas ou diante de dúvidas, o caminho é procurar um médico.
Medicamentos como a semaglutida representam um avanço no tratamento da obesidade. Quando corretamente indicados e acompanhados por profissionais de saúde qualificados, são capazes de promover benefícios importantes para a saúde4-6.
Entretanto, nenhuma medicação deve ser utilizada por conta própria ou com expectativas estéticas irreais. O sucesso do tratamento não está apenas nos números da balança, mas na capacidade de reduzir o peso, preservando o estado nutricional e mantendo uma relação equilibrada com a alimentação.
Por isso, vale reforçar: se você está em tratamento com canetas emagrecedoras e percebe alguns dos sintomas mencionados ao longo deste artigo, procure o seu médico.
Em alguns casos, pode ser necessário ajustar a dose do medicamento ou adotar estratégias nutricionais específicas para garantir que a perda de peso ocorra sem comprometer a sua saúde e qualidade de vida. Só quem dará essa orientação é o médico.
Importante: o conteúdo deste artigo é estritamente informativo e não substitui a consulta médica. As informações aqui contidas não devem ser utilizadas para automedicação ou autodiagnóstico. Nunca utilize medicamentos sem a orientação de um profissional de saúde habilitado e não interrompa tratamentos em curso sem o devido acompanhamento. Em caso de dúvidas sobre sua saúde, consulte sempre um médico.




